Profissionais discutem o uso da telemedicina na Medicina do Trabalho

 

Desde que a Resolução CFM nº 2.314/22, que regulamenta a telemedicina, foi publicada no Diário Oficial da União, em 5 de maio, a prestação de serviços médicos mediados por tecnologias de comunicação na Saúde Ocupacional vem sendo discutida por profissionais da área. Apesar da divulgação deste novo texto, a Resolução CFM nº 2297/21 veda a realização de exames médicos ocupacionais no formato de telemedicina.

Na sexta-feira, 27, a Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho) anunciou que lançará diretrizes de boas práticas de telemedicina na Medicina Ocupacional, com a identificação dos tipos de atendimento que podem ou não ser realizados com o uso das teletecnologias, ou de forma híbrida, ou somente presenciais, seguindo protocolos específicos. Com a participação dos associados, a entidade formou um grupo de trabalho para elaboração do documento, que tem previsto o lançamento da primeira versão no dia 4 de julho. A proposta da Anamt é desenvolver normas que garantam a boa qualidade dos trabalhos, específicos para a Medicina do Trabalho, de forma a complementar a Resolução CFM nº 2.314/2022, que inclui, entre outras modalidades, a teleconsulta, o telediagnóstico (emissão de laudos de exames), a teletriagem e o telemonitoramento para acompanhar a evolução clínica de um paciente.

O trabalho da Anamt iniciou no dia 23 de maio, coordenado pelo  especialista em Telemedicina Chao Lung Wen, professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e chefe da disciplina de Telemedicina,  com a realização da oficina de abertura, ouvindo as propostas de médicos do Trabalho sobre o tema. Ao todo, serão realizadas três oficinas síncronas. O segundo encontro está marcado para 13 de junho e o último, no dia 4 de julho. As oficinas contam com uma plataforma para gerenciar a dinâmica de grupo on-line e para receber as propostas e sugestões para a elaboração do documento, baseado em conceitos de Design Thinking. Os participantes têm até 12 de junho para alimentar a plataforma sobre o que consideram importante em suas áreas de atuação.

 

EXPERIÊNCIA EM SAÚDE DO TRABALHADOR

 

Acompanhando de perto as discussões sobre a Telemedicina na Saúde Ocupacional, o chefe do Serviço de Medicina Ocupacional do HCPA (Hospital das Clínicas de Porto Alegre), professor de Saúde do Trabalhador na Faculdade de Medicina da Unisinos, diretor da Sociedade Gaúcha de Medicina do Trabalho, mestre e doutor pela UFRGS, Fábio Dantas Filho, acredita que a telemedicina é uma ferramenta muito importante para a Saúde do Trabalhador e, quando utilizada de forma adequada e dentro do escopo de indicação, traz benefícios para várias camadas da assistência em saúde.

No entanto, o especialista defende que quando aplicada para substituir a avaliação do trabalhador em situações em que o exame físico é fundamental, a telemedicina se torna insuficiente, podendo levar a erros de diagnóstico, avaliação e manejo. “Isso é particularmente importante para os exames determinados pela NR 7 (Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional), em que o médico do Trabalho precisa definir aptidão laboral, quais sejam: exame admissional, demissional, periódico, de mudança de risco e de retorno ao trabalho”, afirmou.

Dantas indicou que a avaliação clínico-ocupacional é fundamental para compreender as condições de saúde de um trabalhador, seja no processo decisório quanto à aptidão laboral (estar ou não apto para ingressar, permanecer, reingressar ou sair de uma atividade ocupacional, bem como aos riscos relacionados a esta), seja na avaliação de limitações ou restrições para realizar determinadas funções. “A avaliação presencial do trabalhador possibilita que seja realizado, em complemento a uma boa anamnese, o exame físico, que é fundamental para uma avaliação correta e adequada”, destacou.

No Hospital das Clínicas de Porto Alegre, o chefe do Serviço de Medicina Ocupacional afirma que a teleconsulta foi fundamental para que a instituição desse conta dos mais de 23 mil atendimentos a trabalhadores de saúde com quadros suspeitos ou confirmados de Covid-19 desde o início da pandemia. A estratégia, de acordo com Dantas, permitiu, por exemplo, incluir médicas, enfermeiras e técnicas de enfermagem gestantes no processo de assistência à saúde, realizando teleatendimentos e manejando casos em complemento às estratégias presenciais, realizadas pelas equipes de suas respectivas áreas.

“Elas fizeram (e ainda fazem) esse trabalho de casa, respeitando a legislação trabalhista que impede profissionais de saúde gestantes de se exporem a riscos ocupacionais considerados insalubres. É o caso de todas as trabalhadoras gestantes que atuavam presencialmente no HCPA na assistência direta à saúde das pessoas. Dessa forma, além de ser uma ferramenta fundamental para agilizar processos e poupar recursos, o teleatendimento também permite que profissionais de saúde gestantes possam exercer suas atividades com dignidade, de forma remota, sem exposição a riscos no ambiente laboral, e sendo úteis para toda a cadeia de assistência à saúde”, finalizou.

 

FONTE: Proteção +

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